11 de setembro de 2009

ZONA DO CRIME

A primeira sensação de quem assiste a esse filme é a de incômodo, pois, para nós, habitantes das áreas metropolitanas do Terceiro Mundo, a temática tratada é muito familiar: a desigualdade gritante! No mesmo bairro de uma grande cidade mexicana, um condomínio de luxo encontra-se cercado por favelas de todos os lados. Mansões, carros importados, segurança ostensiva e eletrônica fazem de “La Zona” uma espécie de Miami deslocada e implantada no coração do México.

Poderia ser no Recife: a pobreza é a mesma, os tipos físicos são semelhantes, mas a absurda violência recifense certamente suplantaria qualquer outra por aí. O diretor Rodrigo Plá foi corajoso ao abordar um tema paradoxalmente explosivo e banal, na medida em que estamos todos acostumados à miséria que assola a população pobre da AL. Plá foi imaginativo porque filmou uma situação dramática que ressalta magistralmente a vergonha das diferenças. Assim, o filme começa com um adolescente dirigindo um utilitário BMW pelas ruas do condomínio e parando numa esquina onde um escolar fardado comanda o trânsito civilizadamente, facilitando a passagem de crianças pela via pública. Essa cena, ao final, revelar-se-á muito irônica, face à barbárie ali ocorrida. Na trama, numa noite de tempestade, um enorme outdoor cai e derruba os muros eletrificados do condomínio, abrindo uma passagem pela qual se esgueiram três garotos da favela. Em ato contínuo, eles invadem uma mansão para roubar objetos de valor. São surpreendidos pela proprietária, armada com uma pistola. Os ladrões reagem, matam a velha senhora e fogem.

Sendo o capitalismo uma ideologia individualista que valoriza a pessoa exclusivamente por seus compromissos com o desejo de acumulação material-intelectiva, não é de admirar que o critério fundamental da legitimação da acumulação privada seja também um critério de distinções de classes. A partir dessa visão uniformizadora, o capitalismo não pode admitir uma pluralidade de valores nem adotar a idéia da igualdade de oportunidades (bioculturais). A pluralidade ética seria admitir para si e para os outros um respeito universal pelas diferentes ordens de valores. Isso, o capitalismo finge adotar! Em meio à violência do estado de natureza instalado, o garoto rico vive uma experiência de descoberta do mundo real, do qual a existência burguesa sempre mantivera afastado. E nós, habitantes das metrópoles pobres da América Latina, assistindo ao filme, teremos a certeza de como é frágil e absurdo o muro que construímos contra a pobreza onipresente e a violência dela resultante.

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